Arte contemporânea: como você vê o que você vê, por Antonio Delfino*

Vivemos hoje uma “crise” de interpretação, por esse motivo temos que pensar a arte-educação por caminhos diversos: “(...) Como falar para nossos alunos, ou ensinar arte a partir de uma arte que se posiciona com vocação para o estranhamento, conforme atestam Levinas e Blanchot?”, (KONESKI). A arte contemporânea mostra-se complexa e uma leitura tradicional da arte tornou-se obsoleta porque o aluno de hoje, com toda a gama de informação que tem acesso ao conteúdo, não tem nada a ver com aquele aluno do passado.

Hoje a Arte se institui pelo estranhamento, questionamento e é um espaço de sombra, do que está oculto, da negação, do ruído, de dúvidas, de obscuridade. Ela não revela, esconde, pergunta, assim como na obra de Damien Hist que nos faz pensar sobre a incerteza da percepção humana, isto é, a discussão do corpo, da morte, da relação entre efemeridade e permanência. Dessa forma nos fazem refletir sobre a morte, a ameaça da morte – questão central da humanidade, que nos dias de hoje virou tabu. Sonhamos com a juventude eterna, a imortalidade, a desmaterialização que nos propicia o mundo virtual, sem o espaço e o tempo.

Talvez seja esse o motivo da obra de Hist fazer tanto sucesso. Ela incomoda, faz barulho, nos faz refletir. Em seus trabalhos discute questões existenciais de maneira a criticar a vida contemporânea através de ambiguidades. Quando ele próprio justifica uma de suas obras mais polêmicas, nos deixa essa ideia clara: "É uma forma de celebrar contra a morte. Quando se olha para uma caveira pensa-se que representa o fim, mas quando se vê de uma forma tão bonita, dá alguma esperança. Os diamantes são os símbolos de que tudo é eterno". Ele trabalha nos limites da arte, dos objetos de consumo e da mídia, a ponto de nos confundir quando embaralha todos esses elementos. Temos de procurar pistas, nuances, possibilidades.

Uma leitura tradicional já não cabe nesse universo, temos de pensar outra forma de experenciar a arte: “O que Levinas nos propõe é estarmos diante de uma arte que é fecundidade na impossibilidade de leitura que ela essencialmente nos apresenta. Estamos diante de uma arte que não prevê resultados. E se ela enriquece nossa vida, não é porque nos oferece saídas, mas, ao contrário, porque problematiza nossa relação com a realidade e apresenta muito mais perguntas do que respostas.”, (Koneski). Segundo Tom Sachs suas obras seriam próteses culturais que funcionam como legendas da cultura tradicional. Ele é conhecido por suas elaboradas recriações de vários ícones modernos, procura confundir a distinção entre o objeto real e sua representação. Constrói artesanalmente os seus trabalhos de tom irônico presente em sua poética.

Nesse sentido, atuando em sala de aula, sempre me preocupei em mobilizar a comunidade escolar em promover visitas pedagógicas a exposições de arte contemporânea. O contato direto com a obra nos possibilita mil outras sensações que nos leva a complementar, interagir e, muitas vezes, colaborar com aquele trabalho. Procuro também trabalhar o tema da exposição antes, durante e depois do dia da visita, para que o aproveitamento seja maior. Sempre respeito as diversas interpretações dos alunos na apreciação de um trabalho, pois sei que sua experiência de vida não é comum a todos. Hoje em meu trabalho na Oficina Pedagógica procuro aproximar ao máximo o artista do aluno, o aluno dos museus, o professor das tendências e o gestor dos programas/projetos. 

Não é fácil compreender a arte contemporânea, podemos defini-la como arte de difícil acesso. O mais difícil é falar dessa arte para os nossos alunos. O mundo, a arte e nossos alunos mudaram radicalmente. Temos também de repensar nossa metodologia: “O arte-educador, por sua vez, fica livre da obrigatoriedade de dar respostas, de analisar, de ler, de interpretar e de responder à arte contemporânea. Em troca, estaria diante do ruído dessa arte, diante da sua problematização, que lhe tira qualquer palavra que se tentaria pronunciar a respeito dela. Cabe ao arte-educador auxiliar seus educandos perceberem a fecundidade do ruído que a arte contemporânea aponta, mostrar-lhes a fecundidade desse estar para mais além do que podemos pensar, ou desse “muito próximo” que nos tira o sentido do compreender.”, (Koneski). O trabalho de Rachel Harrisan é um bom exemplo disso: sua obra discute o ato de olhar e de compreender que nos circunda e antes passava despercebido. Apropria-se de referências de arte e de objetos e recontextualizá-os para que possamos ter e refletir sobre outras experiências de realidade.

* Antônio Delfino – pedagogo, arte educador, ator e desenhista industrial. Atua como Professor Coordenador da Oficina Pedagógica na área de Arte na Diretoria de Ensino Centro-Oeste/SP. É colaborador no desenvolvimento e implementação do Currículo de Arte para o Ensino Fundamental nos anos iniciais (Ciclo I) organizado pela Coordenadoria e Estudos de Normas Pedagógicas da Secretaria do Estado da Educação de São Paulo.

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